O que a Neurociência sabe sobre o Sadomasoquismo?

Varios aspectos da neurociência da dor estão envolvidos e ajudam a explicar o Sadomasoquismo.

CONTEXTO

O Sadomasoquismo é uma prática associada ao BDSM (Bondage-Disciplina, Dominação-Submissão e Sadomasoquismo. O Sadomasoquismo especificamente está associado ao Sadismo (prezer em causar dor) e masoquismo (prazer em receber). O estudo das bases neurobiológicas deste tipo de prática sexual está diretamente ligado a Neurociência da Dor.

HISTÓRICO

O termo Sadismo deriva do Marquês de Sade (Sec. XVIII), nobre francês que escreveu diversas obras focadas na agressão física e no prazer. Já o Masoquismo se origina do Cavaleiro Sacher-Masoch (Sec. XIX) que em obras como "A Vênus das Peles" retratava a submissão e o prazer. Em 1886, Richard Von Krafft-Ebing publicou "Psychopathia Sexualis" que tornou-se um marco da apropriação do erotismo humano pelo discurso médico. Mas foi em 1988 que o primeiro estudo de imagem utilizando Tomografia por Emissão de Pósitrons (PET) investigou a excitação em um paciente sádico.

NEUROCIÊNCIA DA DOR

O BDSM envolve a dissociação entre o componente sensorial -discriminativo (onde dói) e o afetivo-motivacional (prazer na dor). Indivíduos classificados como sadistas mostram maior ativação Frontotemporal e Amigdalar quando observam cenas de dor. Além disso, em contextos relacionados ao BDSM também é possível verificar o envolvimento dos Córtices Somatossensoriais, ínsula anterior e Córtex Cingulado Anterior. Alguns trabalhos também evidenciaram o envolvimento do sistema límbico através de mecanismos de sinalização dopaminérgica de recompensa em BDSM. Submissos também demonstram mudanças no eixo do stress, com alterações nos níveis de cortisol. E por fim, pode-se falar também da modulação analgésica endógena pela Via Descendente, que é evidenciada através de maiores concentrações de endocanabinóides em adeptos da prática.

CONCLUSÃO

O BDSM como um todo ganhou maior notoriedade contemporânea através da literatura e do cinema. Em paralelo, os estudos atuais trouxeram evidencias mais ricas de alterações na percepção da dor, ativação do sistema recompensa límbico e modulações neuroquímicas (Dopamina, Cortisol e Endocanabinóides). Mesmo com todos esses achados, o desenvolvimento de estudos sérios sobre interesses sexuais atípicos ainda é marginalizado e necessita de maior dedicação acadêmica.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

HARENSKI, C. L. et al. “Increased Frontotemporal Activation During Pain Observation in Sexual Sadism: Preliminary Findings,” Archives of General Psychiatry, vol. 69, no. 3, pp. 283–292, 2012.

Garnett, E.S., Nahmias, C., Wortzman, G. et al. Positron Emission Tomography and sexual arousal in a sadist and two controls. Annals of Sex Research 1, 387–399, 1988

LUO, S.; ZHANG, S. “Embodiment and Humiliation Moderation of Neural Responses to Others’ Suffering in Female Submissive BDSM Practitioners.,” Frontiers in Neuroscience, vol. 12, pp. 463–463, July 2018

SAYIN, U. H. “DSM Controversies, Defining the Normal and the Paraphilia: Sexual Pleasure Objects, Fantasy, Variations, Soft-BDSM, ESR, Hypersexuality, Sex Addiction and Nymphomania,” vol. 5, no. 1, pp. 1–16, Aug. 2019

PEREIRA, M. E. C. KRAFFT-EBING Pychopathia sexualis and the creation of the medical notion of sadism. Clássicos da Psicopatologia. Rev. latinoam. psicopatol. fundam., 2009.