Como é não sentir dor?

Analgesia Congênita é uma síndrome rara que evidência os problemas de viver sem sentir dor.
Na cidade de Chihuahua, Felipe de 9 anos morava com sua família em um circo. Várias pessoas faziam fila para ver o "Menino que se prega". O espetáculo se baseava no menino pregando vários pregos nos dedos, enquanto não expressava nenhum indício de dor. Em uma visita de rotina, a polícia mexicana encontrou Felipe preso em uma jaula, tratado como animal. O garoto mexicano foi adotado por outra família, que cuida dele com todo o cuidado e carinho que um paciente diagnósticado com Analgesia Congênita merece.
O primeiro caso de Analgesia Congênita foi descrito por Dearborn em 1932, na qual ele descreve um homem com 54 anos de idade insensível a dor. O termo só foi oficializado em 1957 por Fanconi e Ferracini. Desde então, vários pesquisadores descreveram as condições ósseas destes pacientes, bem como tentaram explicar a origem da síndrome. Na Década de 70, acreditava-se que uma hiperprodução de endorfinas provocava o bloqueio da dor. Contudo, se esta teorica fosse verdade, os pacientes sentiriam um bem-estar muito grande durante os eventos nocivos e o uso da Naloxona (Antagonista Opióide) reverteria a analgesia dos pacientes, ambos os casos não são verdade.
Em 2001, foi descoberto que a origem da condição é uma mutação no gene SCN9A, que codifica a subunidade A, dos canais de sódio Nav1.7. Esses canais se encontram especialmente em células nociceptivas localizadas no gânglio da raiz dorsal (próximo da medula espinal). A função principal desses canais é a transmissão do estímulo nocivo ao sistema nervoso central. A ausência da função deste canal funciona como ausência de energia, ao cortar um fio elétrico.
Os poucos (mas existentes) relatos de casos e reportagens evidenciam como a Analgesia Congênita pode influenciar a vida dos pacientes. Aos 6 anos de idade, uma paciente de Morelos no México, relata ter sofrido uma queda que começou a atrapalhar sua locomoção, mas que normalizou uma semana depois. A queda gerou uma lesão no quadril esquerdo, a qual não teve tratamento pela ausência de dor. Sua infância e adolescência foi seguida de lesões do tornozelo, fraturas no fêmur e luxação bilateral no quadril. Aos 15 anos, a paciente apresentava baixa estatura para a idade, marcha claudicante, inclinação da pelve para a esquerda, deformidades nas mãos e nos tornozelos e tíbias com arqueamento em valgo.
No Brasil, o caso do Paciente Lúcio chamou a atenção dos profissionais da área da saúde. Aos 7 meses de idade, quando seus dentes de leite começaram a nascer, ele foi encontrado pelos pais com a língua completamente dilacerada, de tanto mordé-la, e por pouco ele não morre engasgado no próprio sangue. O dignóstico veio com o neurocirurgião sueco Jan Minde, que ajudou a família a criar estratégias para melhorar a qualidade de vida de Lúcio. Na adolescência, ele passou a registrar todos os seus eventos em um diário, e os objetos da casa são etiquetados com adesivos Verdes, Amarelos e Vermelhos, a fim de orientar o garoto do que é ou não perigoso.
Casos como os de Felipe e Lúcio evidenciam a importância protetora da dor. O entendimento da Analgesia Congênita auxilia tanto na melhora da segurança e qualidade de vida dos pacientes que convivem com a síndrome, quanto no desenvolvimento de novas estratégias analgésicas baseadas nos canais Nav1.7. Infelizmente, a Analgesia Congênita não tem cura, mas hoje, já entendemos bem mais sobre o prognóstico desses pacientes, que no passado.
DEARBORN, G. V. Um caso de analgesia geral pura congênita. Journal of Nervous and Mental Disease . 1932;
KANDEL, E. R. et al. Princípios de Neurociência. 5ª edição. AMGH Editora LTDA. Capítulo 24, P. 464 – 482, 2014.
MORESCHI, B. As pessoas que não sentem dor. SuperInteressante (Saúde), 2011;
RUIZ-MEJIA, et al. Analgesia congénita: reporte de dos casos. Acta ortop. mex [online].
2018;